Teoria da Política Sobre a Natureza - Uma analogia das condutas humanas com a natureza

17/09/18

Nelson Olivo Capeleti Junior - OAB/SC 51.501



Em que pese a civilização humana compreender as árvores enquanto coisas, e não enquanto seres vivos dignos de respeito e proteção, as árvores têm mais elementos em comum com a espécie humana do que se imagina:

Humanos e árvores têm mais características em comum do que se supõe. Assim como nós, elas são mais fortes em grupo. Vivem em sociedade, compartilham nutrientes, protegem-se em conjunto de fatores como o excesso de calor e de frio. Seguem, também, um manual de etiqueta tácito, que dita sua aparência e o que devem  fazer. A divisão de tarefas abrange até os indivíduos mais velhos e fracos, e os filhos merecem atenção especial. Assim como nós, as árvores não estão rodeadas apenas por aliadas. Mantêm, às vezes até a morte, uma rivalidade com outras espécies e invadem seu espaço, competindo por sol e alimento — e são capazes de liberar sinais para atrair predadores dessas espécies “inimigas” por uma rede de comunicação formada por fungos, que se expande por diversos quilômetros. (web 2018)¹

Em um bosque intocado pela civilização, os processos de seleção natural ocorriam sem a interferência humana. Um grupo de árvores comunicava-se através de uma rede construída por conexões de raízes.

Havia entre aquelas árvores uma constante troca de nutrientes que tinham como intento o fortalecimento daquela comunidade, de tal modo, que diante daquele modelo de comunicação, as árvores identificavam supostos agressores e transmitiam as informações umas as outras, visando a proteção do grupo:

As árvores têm diferentes oportunidades para se comunicar. Primeiro, com aromas — elas enviam certas substâncias quando são feridas por insetos ou mamíferos. Desta forma, as árvores vizinhas da mesma espécie reconhecem o perigo e começam a se preparar para o ataque. A outra possibilidade é pelo envio de substâncias químicas e sinais elétricos. Isso acontece próximo às raízes com a ajuda dos fungos. E definitivamente as árvores também conseguem se comunicar com animais. Espécies como pinheiros sabem identificar a saliva de cada espécie de inseto, e assim atraem predadores específicos. Por exemplo, apelam para pequenas vespas, que depositam seus ovos no corpo das lagartas que comem suas folhas. A larva da vespa se desenvolve no interior da praga, que é devorada pouco a pouco. (web 2018)¹

Contudo, na periferia do bosque, onde o agrupamento de árvores frondosas dava lugar a uma savana, os recursos eram mais escassos. Nos limites periféricos do bosque não havia grandes quantidades de folhas pelo chão, o que é essencial para o enriquecimento do solo.

No centro do bosque, folhas espalhavam-se pelo chão, dando ensejo a inúmeras espécies de vida microbiana, que nutriam as árvores dando-lhes possibilidades de crescimento saudável e longevidade centenária.

Quando chegava o inverno, as árvores menores que viviam no centro protegiam-se com facilidade do frio, pois eram cercadas por árvores maiores que limitavam a passagem do vento.

Em sentido oposto, nas periferias, onde as árvores encontravam-se mais distantes umas das outras, as menores sofriam com as baixas temperaturas no inverno, e, não rara as vezes, quando atingiam a fase adulta, perdiam a capacidade de gerar frutos.

Os frutos eram essenciais para a perpetuação da espécie, pois atraiam pássaros que, se alimentando dos frutos, espalhavam as sementes pela redondeza, dando ensejo a novas árvores.

Neste cenário, o pinheiro mais alto, que tinha vocação para a política, decidiu que, para melhor adaptação da comunidade ao meio ambiente, seria melhor instituir um código de condutas, no qual seria estipulado que cada árvore deveria contribuir com a comunidade, sob pena de arcar com reprimendas que iam desde a perda de nutrientes, causando seu enfraquecimento, até a morte por inanição, visando extirpar da comunidade aquelas que reincidissem na violação das regras.

Através da rede de raízes, o alto pinheiro conclamou a todos que lhe dessem a devida atenção, e passou a pormenorizar seus planos.

Um grupo de árvores frutíferas, do centro do bosque, cansadas de compartilhar com toda a comunidade os seus nutrientes, logo bradou que pelo princípio da meritocracia, toda árvore deveria reter os nutrientes produzidos.

Outro grupo de árvores, as que mais produziam folhas, bradou que pelo princípio do livre mercado, deveria ser reconhecido o direito de propriedade pelas folhas produzidas, e reconhecido o direito de disposição sobre as folhas, podendo, portanto, vendê-las por um preço justo.

Feitas estas considerações, o alto pinheiro consignou que, as árvores que não dessem frutos deveriam ser punidas com a morte pela interrupção de nutrientes. Todos concordaram.

Foi também decidido que durante o outono as árvores poderiam reter a título de patrimônio até 500 folhas e 150 frutos. Sendo que o excedente deveria ser destinado ao fundo de manutenção do sistema político.

Contudo, nenhuma árvore da periferia participou da assembleia. As árvores do centro, propositalmente, não transmitiram as mensagens pela rede de raiz. Temiam que as árvores da periferia se rebelassem, impondo condições para os termos pactuados.

Decidiram então, que em vez de chamar toda a periferia para a assembleia, enviariam um comunicado para que fosse eleito um único representante da área periférica, que ficaria responsável por representar toda aquela parte do bosque.

Houve alvoroço na periferia. Árvores frágeis estavam apreensivas com as decisões tomadas pela comunidade do centro. Não sabiam se era melhor eleger um representante diplomático ou um militar e impositivo. Por fim, após muito conversarem, decidiram que a Acácia, que era diplomática, representaria o grupo.

Chegado o dia de comunicar a periferia, o alto pinheiro, se valendo da rede de raízes, transmitiu a Acácia o capítulo dos delitos e das penas, capítulo do direito de propriedade, e por fim, as regras de livre comércio.

A Acácia, diante da imposição dos abastados, viu-se obrigada ao cumprimento da decisão pseudo democrática da comunidade central. Todavia, interrompendo a comunicação com o alto Pinheiro, transmitiu as suas conterrâneas a seguinte mensagem:

Irmãs e irmãos de terra. Não devemos perder a esperança. A comunidade do centro criou um código de condutas. No código de condutas as nossas fragilidades são tipificadas como crimes, e pelas nossas condutas, muitas de nós encontrarão a morte!

Poucas são as árvores daqui que produzem mais de 500 folhas ao ano… e poucas aqui ou quase nenhuma de nós produz 150 frutos.

Nós resistiremos fortemente, e se porventura, o Grande Arquiteto do Universo, que rege os ciclos da natureza, permitir que padeçamos, será sem dúvidas, para que as árvores que vivem mais perto de centro se tornem, na nossa ausência, as árvores periféricas, aprendendo com seus erros e evoluindo para uma cultura de fraternidade.

O Sol castigá-lo-ás. E porque não estão acostumadas com a energia do Sol a incidir direto sobre suas folhas, encontrarão a morte!

Assim morrerão sucessivamente todas as árvores até que o Sol atinja o centro do bosque, que não será mais do que pequeno oásis…

Neste dia… O alto Pinheiro e seus confrades compreenderão que a vida em comunidade só é possível se houver fraternidade entre todos, com a adequada distribuição dos recursos.

Nós vivemos na periferia. Isto é verdade!

Nós não produzimos frutos como às árvores do centro. Isto também é verdade!

Nós não produzimos folhas em abundância. E isto é verdade também!

Mas quem senão nós suportamos o Sol nascente e o Sol poente. E no trajeto ininterrupto de nossa estrela comum damos guarida às árvores do interior do bosque!

Somos nós que no inverno barramos a incidência dos ventos cortantes que chegam do horizonte, e lá no interior do bosque dormem aquecidas as árvores com seus frutos sumarentos!

Sem a periferia não há vida no Centro. Somos nós que sustentamos o conforto das sequoias centenárias! Somos nós que suportamos as piores condições para que elas tenham conforto e longevidade!

Portanto, irmãos e irmãs, a partir do nascer do sol, aquelas que não tiverem frutos e aquelas que não tiverem folhas, serão consideradas criminosas.

Não tenham temor!

Não se abalem em vossas raízes!

Eles podem criar leis que fazem das nossas características crimes odiosos. Eles podem fazer de nós criminosos e delinquentes segundo seus parâmetros estúpidos. Mas na nossa consciência nós sabemos que estes crimes são uma construção política.

Houve silêncio…

Houve o passar dos dias…

Houve mortes…

As mortes eram sucedidas por mais mortes, e as árvores que antes eram do interior do bosque, passaram a constituir a periferia. E, constituindo a periferia, passaram a incidir nos mesmos delitos, pois não suportavam a incidência do Sol.

O alto Pinheiro diante dos altos índices de criminalidade decidiu recrudescer a lei penal.

Mais árvores morreram até que o caos se instalou no centro.

Antes de morrer, o Alto Pinheiro se deu conta de que, talvez, devesse ter recrudescido mais a lei penal.

Infelizmente, as árvores são parecidas com os homens.

¹https://oglobo.globo.com/sociedade/as-arvores-cuidam-uma-das-outras-diz-engenheiro-florestal-2120685