Da Educação Infantil ao Entretenimento Adulto; à Pedagogia do Mal

03/07/18

Nelson Olivo Capeleti Junior - OAB/SC 51.501



Aprendemos, desde tenra idade, que os covardes se abstêm de reagir às agressões. E que os corajosos enfrentam as adversidades da vida com resposta equivalente as agressões sofridas.

 Todavia, poder-se-ia dizer, sem exageros, e com sinceridade, que os corajosos enfrentam as adversidades da vida em silêncio, e, os covardes revidam a injúria, com injúria. Soco, com soco. Violência, com mais violência.

Cada criatura humana tem o comportamento determinado pelos instintos que lhe presidem o ser. Assim, com base nos mesmos sentidos que se operam na lebre e no tigre, a criatura humana, ora corre, ora ataca.

São os instintos primitivos, ou animais, que anulam a racionalidade mal desenvolvida, prevalecendo na criatura humana às ações mais próximas da animalidade. Assim, diante das mais complexas situações, ao se sentir acuado, o indivíduo ataca.

Existe também na criatura humana o comportamento determinado pela racionalidade desenvolvida. Assim, embora haja no indivíduo o instinto primitivo de devolver a agressão injusta e sofrida, o injustiçado, reprimindo o instinto de vingança, processa racionalmente, extraindo a síntese mais adequada, oriunda de sua bagagem cultural, empregando a melhor e mais pacífica solução para o conflito.

Assim, diante de uma agressão, ao invés do revide em idêntica proporção, perdura o silêncio. Este silêncio, só é possível se a criatura humana distinguir no conflito os complexos processos emocionais por detrás das ações.

Muitas vezes, aquele que nos ataca o faz pela incompreensão de seu papel no contexto familiar ou social e, diante da sua inadequação perante a vida, cabe-nos apiedar-nos de seu estágio infantil no processo civilizatório e evolutivo.

Contudo, infelizmente, desde muito tempo, a mídia, em seu papel pedagógico, educa as crianças para o enfrentamento, e não para a solidariedade. Super Heróis sempre enfrentam os inadequados, subjugando-os na personificação do mal.

Embora exista na lógica do Super Herói o digno personagem do bem que não se omite diante das más ações, a verdade, é que as crianças são desde tenra idade, programadas para reagir com violência aos embates que a convivência impõe.

A mesma lógica se opera no desenvolvimento da infância para a adolescência, dando ensejo a um adulto violento. Propenso aos maus tratos e a ditadura familiar, o inadequado subjuga esposa e filhos aos seus caprichos e preferências.

Compreendemos hoje que a violência de gênero é o retrato da má formação educacional que torna inapto o indivíduo para o convívio social.

A princípio, sob uma perspectiva ateísta, poder-se-ia dizer que a lógica cristã, segundo a qual devemos ofertar a outra face à agressão sofrida, seria na realidade, uma doutrinação para omissão dos povos diante da classe dominante.

Consoante o que podemos observar da história, a própria Igreja de Roma, na idade média, pregava a pratica da paz e do amor para seus seguidores, enquanto perseguia, torturava e matava.

Contudo, sob a perspectiva metafísica,  se acreditarmos que a “alma”, ou a consciência, sobrevive à decomposição do corpo, em outras faixas de vibração, imperceptíveis aos cinco sentidos humanos, poder-se-ia afirmar que, o silêncio é um ato de coragem diante da dor sofrida.

Suportar calado a ofensa odiosa é um gesto de grandeza diante do ofensor desajustado. Poder-se-ia afirmar, de maneira verossímil, que ao suportar a agressão e não dar continuidade ao conflito agravando-o estar-se-ia a tolher a ignorância alheia, tornando-nos impermeáveis ao mal que jaz no outro.

Evidente que isto não significa agüentar calada uma agressão no âmbito doméstico. A mulher agredida deve buscar a coerção da lei e todas as ferramentas legais para afastar-se do cônjuge desajustado.

Todavia, se a mulher violentada no lar responder com violência ao ataque sofrido, provavelmente suportará suplicio ainda maior. Se o agressor usa da violência fortuita e odiosa, sem provocações aparentes, se agredido, responderá com maior violência, haja vista sua incapacidade de comportar-se com racionalidade diante dos conflitos próprios da existência. A reação mais lógica diante dos inadequados é o silêncio e o prudente afastamento.

A mesma lógica deveria operar-se no sistema prisional. Diante da criatura delituosa, que violou o contrato social estabelecido, o caminho deveria ser o seu prudente afastamento da sociedade ajustada, para assim, em um ambiente propicio ao desenvolvimento de virtudes, fosse o outrora desajustado, reintegrado a sociedade, ajustado e apto a respeitar o contrato social.

Todavia, o que ocorre é a lógica odiosa da violência. O apenado é excluído da sociedade e passa a conviver em um ambiente que amplia as suas inadequações diante do outro e da sociedade.

Segregado na cadeia pública, em ambiente dominado e gerido por organizações criminosas, o apenado terá que agir e reagir durante o tempo em que estiver segregado, pela lógica da violência e da repressão.

Ou seja, não haverá espaço para o desenvolvimento das virtudes necessárias ao exercício da alteridade. O apenado será restituído à sociedade ainda mais desajustado, e, quem perde com isto é a própria sociedade.

Por incrível que nos pareça, o encarceramento nas masmorras brasileiras é uma triste e, por óbvio, inócua política pública que visa à harmonia da sociedade. Busca-se o aprimoramento das qualidades humanas pela via da segregação, da violência e da dor. Funciona? Não!

Assim, o modelo educacional que apregoa que a coragem é o revide, está em completo desacordo com o desenvolvimento de uma sociedade justa, harmoniosa e igualitária.

Desde os processos que implicam a educação infantil até a lógica perversa que opera no sistema prisional, somos a todo tempo educados para embate irracional e para a pacificação pela violência. No melhor estilo romano, ¹“Si vis pacem, para bellum”. Ou, se queres a paz, prepara-te para a guerra.

Este pensamento romano ainda permeia a civilização vigente, sendo inclusive mote de campanha política para presidente nas presentes eleições de outubro. Todavia, se pretende-se um avanço civilizatório para a paz, já é o momento de confessarmos que melhor seria: Se queres a paz, sê pacifico.

Portanto, a pedagogia da violência, que impera desde os desenhos animados aos jogos de vídeo game. Desde os brinquedos que imitam espadas e armas de fogo. Aos filmes de ação que embelezam o uso de narcóticos; estamos sendo condicionados a agredir, a matar, e a responder com violência, a violência imposta pelo mundo.

Da educação infantil ao entretenimento adulto; à pedagogia do mal.

Termino parafraseando Mahatma Gandhi: “Seja a mudança que você deseja ver no mundo”, mesmo que isto lhe cause constrangimentos por conta da renuncia a vaidade. A rosa que embeleza, não prescinde do adubo vulgar que lhe dá origem.

¹ O ditado é do folheto De Re Militari, (Sobre as Questões Militares) do autor Latino do quarto século Publius Flavius Vegetius Renatus. - Web 2018 https://pt.wikipedia.org/wiki/Si_vis_pacem,_para_bellum

Por Nelson Olivo Capeleti Junior – OAB/SC 51.501