Contrarrevolução Francesa - Ascensão da Igreja no século XXI

16/11/18

Nelson Olivo Capeleti Junior - OAB/SC 51.501



O conhecimento científico tem sido responsável pela emancipação do homem frente os mistérios que a vida impõe. Os sentidos humanos dão ensejo a observação das estrelas e desde a infância da humanidade que a criatura humana formula fantasias para explicar os fenômenos da natureza.

O Sol e Lua, as estrelas no firmamento, os fenômenos naturais mais próximos da criatura humana, como terremos, maremotos e furacões, erupções vulcânicas, desde sempre excitaram a imaginação das criaturas racionais.

Todo o poder investido na autoridade exercida pelos chefes de Estado, desde as tribos primitivas as sociedades contemporâneas, firmam em Deus a legitimidade pelo poder exercido.

Foi assim na sociedade patriarcal de outrora, onde o homem mais velho (Pater famílias), detinha poder de disposição sobre a vida da esposa, dos filhos e dos escravos.

Foi assim na idade média, em que o feudalismo e o absolutismo na Europa Ocidental baseavam-se no poder investido pela Igreja Católica. E não é diferente nos dias de hoje. A via de exemplo, no Brasil, o presidente eleito, garante que foi o próprio criador do universo que o escolheu para o mister de chefe de estado e chefe de governo.

Acontece que, desde sempre, quem colocou em dúvida a validade dos mitos nos quais baseava-se a justificativa de poder, acabou perseguido, torturado e morto, haja vista, que o poder constituído, visando a manutenção da sociedade estabelecida, necessariamente precisava legitimar-se. Assim, filósofos e cientistas foram eleitos inimigos do Estado e inimigo do próprio Deus.

Sócrates foi condenado a morte pela ingestão de cicuta. Galileu Galilei morreu cego e em prisão domiciliar depois de se retratar perante o santo ofício. Giordano Bruno foi executado na fogueira após se negar a retratar-se por dizer que a terra era apenas um planeta como muitos outros a gravitar em torno de sua estrala comum, o Sol.

O que se pode observar desde a era pré cristã até os dias de hoje, é que chefes de Estado e religiosos tem trabalhado em conjunto pela manutenção dos mitos primitivos. Os políticos, porque o eleitor religioso nada questiona, desde que o candidato se apresente sob a investidura de Deus. O religioso, porque seu poder dimana da crença de que o sacerdote tem ligação direita com o criador. Todo o poder dimana da crença cega nos mitos e da obediência irrestrita a classe politica e a classe religiosa.

Em que pese a ruptura levada a termo pela revolução francesa, com a separação entre Estado e Igreja, ocorre que tal fenômeno de ruptura tem se enfraquecido ao longo dos anos e novamente, paulatinamente, Igreja e Estado voltam se fundir sob novo figurino.

Não se trata de uma fusão institucional, mas da tomada do poder civil por religiosos que passam a legislar em favos das suas congregações. Assim, todas as criações legislativas não observam o conhecimento científico, mas se restringem ao conhecimento intrínseco as crenças religiosas. Ao observador mais distraído, tal fenômeno pode parecer benigno. Todavia, basta um olhar mais percuciente para compreendermos as implicações de tal fenômeno.

A via de exemplo, o antropocentrismo (forma de pensamento comum a certos sistemas filosóficos e crenças religiosas que atribui ao ser humano uma posição de centralidade em relação a todo o universo), levou a extinção 60% das espécies animais (fauna), nos últimos 44 anos (Alerta vermelho para o planeta: um novo relatório do WWF estima que as populações de peixes, aves, mamíferos, anfíbios e répteis diminuíram cerca de 60% entre 1970 e 2014. Nas regiões tropicais, como a América do Sul, a redução foi de 89%). (Web 2018)¹.

Não obstante a inaptidão da civilização humana em adaptar-se ao ecossistema, resta incontroverso que tal elemento é corroborado pela certeza que tem o indivíduo, de que todos os elementos da natureza são objetos para a manutenção humana.

O adestramento social da criatura humana dentro do sistema de mitos não lhe fornece as ferramentas cognitivas necessárias para que o indivíduo se compreenda como parte integrante de uma macro sociedade, onde ele, o ser humano, é apenas mais um animal a compartilhar do ambiente planetário.

Sem compreender-se como uma unidade de carbono, tal como o cachorro que lhe divide a intimidade do ninho doméstico, ou tal como o pássaro e todas as outras criaturas vivas e não humanas, que grassam pelo globo terrestre, o ser humano abusa do ecossistema cavando paulatinamente o declínio de sua própria espécie.

A criatura humana encontra-se, portanto, cativa de um sistema de crenças que é fomentado e estimulado pelas classes politicas e religiosas, e infelizmente não há perspectiva de emancipação, pois encerra-se um ciclo na humanidade de separação entre Estado e Igreja com a tomada do Poder de Estado pelos proprietários das congregações religiosas. Não é em vão que temas de cunho estritamente religioso, como o domínio de jerusalém, tem sido levada a termo pelos Estados Unidos da América e, até mesmo o Brasil tensiona levar para a terra santa a sua embaixada.

Tal qual no passado remoto e no pretérito recente, colocar-se contra os dogmas e contra o senso comum tem se mostrado uma tarefa de embate social. O ser humano cativo defende de forma cega os seus “Senhores” pois toda a sua construção educacional esta sedimentada no sistema que representam.

Se houvesse maior abertura para a ciência, e a criatura humana se interpretasse na condição de tempo e espaço que lhe peculiar, por certo haveria ensejo a novas formulações de ideias. Atribui-se a Albert Einstein a seguinte frase: A mente que se abre a uma nova ideia jamais volta ao seu tamanho original.

Não obstante, o eminente astrofísico, Carl Sagan, no seu augusto texto inserido no livro: Pálido Ponto Azul, acerca de uma imagem de nosso pequeno planeta, captada a milhares de quilômetros de distância no espaço, nos legou a seguinte reflexão²:

“A Terra é um cenário muito pequeno numa vasta arena cósmica. Pense nos rios de sangue derramados por todos aqueles generais e imperadores, para que, na sua glória e triunfo, pudessem ser senhores momentâneos de uma fração de um ponto. Pense nas crueldades sem fim infligidas pelos moradores de um canto deste pixel aos praticamente indistinguíveis moradores de algum outro canto, quão frequentes seus desentendimentos, quão ávidos de matar uns aos outros, quão veementes os seus ódios”.

“As nossas posturas, a nossa suposta auto importância, a ilusão de termos qualquer posição de privilégio no Universo, são desafiadas por este pontinho de luz pálida. O nosso planeta é um grão solitário na imensa escuridão cósmica que nos cerca. Na nossa obscuridade, em toda esta vastidão, não há indícios de que vá chegar ajuda de outro lugar para nos salvar de nós próprios”.

Infelizmente, o livre pensamento tem sido combatido desde sempre, pois contrapõe-se ao poder instituído. Hoje mesmo, no Brasil, as universidades e as escolas são atacadas sob a acusação de praticar doutrinação ideológica (comunista). Contudo, não gera nenhuma surpresa que, o que se aponta como sendo ideologia, é justamente a bagagem científica e histórica que se contrapõe ao senso comum e ao poder politico religioso vigente e em acensão na sociedade. O projeto (Escola sem partido) é apenas uma consequência da ascensão da igreja no governo civil.

Todos os livres pensadores estão sob ameaça. Até mesmo no seio de nossas famílias somos apontados como supostos “comunistas” e/ou “esquerdistas”. O intelectual é atacado justamente por prenunciar uma ameaça; uma ameça as crenças que dão segurança a insegura criatura humana, desabrigada do telhado científico e filosófico.

De todo o exposto, não significa dizer que Deus seja inimigo da razão. De fato não o é. O inimigo da razão é a religião e os que fazem da religião um meio de ascensão ao poder. A religião é obra puramente humana e, embora a ciência também o seja, em verdade, a ciência baseia-se na análise de evidências que são validadas ou descartadas, enquanto que a religião é baseada no falseamento das evidências de acordo com o interesse de que se assenta no topo da pirâmide sacerdotal (Congresso Nacional). 

O século XXI prenuncia uma nova era de simbiose entre Estado e Igreja sob novo figurino. Trata-se, portanto, da roupagem do Poder Civil, pelo qual, religiosos usam do Poder da Igreja para ascender ao Poder Civil e lá estando, legislarão para aumentar seu rebanho e perpetuar-se no poder. Não é em vão que sociologia e filosofia estão sendo banidas dos currículos escolares.

¹https://oglobo.globo.com/sociedade/populacoes-de-animais-cairam-60-em-44-anos-alerta-wwf

²https://pt.wikipedia.org/wiki/P%C3%A1lido_Ponto_Azul